Site de empregos voltado para travestis e transgêneros registrou alta de 148% no número de empresas parceiras

No último sábado, a cidade de São Paulo realizou a sua primeira Feira de Empregabilidade Trans e Travesti, um evento que contou com representantes de 12 grandes empresas que estão apostando na diversidade de sua mão de obra. A Braskem, que por enquanto tem apenas um funcionário contratado como transgênero, na própria capital paulista, recebeu 100 currículos no evento.

A feira é mais um exemplo do gradual aumento de interesse por parte do empresariado em ter um quadro de pessoal que contemple as minorias. Uma das maiores varejistas do país, a C&A anunciou esta semana que as 5 mil vagas temporárias que estão sendo criadas para as festas de fim de ano estão abertas, sem limite, a candidatos transgêneros.

Para se ter uma ideia do aumento da demanda, o site Transempregos – plataforma que faz intermediação de vagas para travestis e para homens e mulheres que se submeteram a cirurgias e tratamento para a transição de gênero – começou este mês de dezembro com 118 empresas parceiras. Esse número representa um crescimento de 148% em relação ao fim do ano passado, quando o site, criado em 2013, contava com 48 apoiadores.

Causa

O foco na diversidade da Braskem começou em 2014 com a construção de 70 banheiros femininos nas diversas plantas espalhadas pelo país. Depois de iniciativas voltadas para negros e pessoas com deficiência, a petroquímica baiana aderiu em 2016 à causa do segmento social que enfrenta oposição mais explícita por parte de familiares, colegas de escola e, claro, companheiros de trabalho: os transgêneros.

Com a exclusão começando dentro de casa e nos primeiros anos de escola, muitas dessas pessoas não conseguem prosseguir nos estudos e têm suas chances no mercado de trabalho diminuídas antes mesmo de entregar o currículo ou comparecer a uma entrevista.

As alternativas normalmente se reduzem aos salões de beleza ou o comércio de sexo.   “Disputar o mercado de trabalho, dada à polêmica que a sociedade coloca para as pessoas trans, é muito mais difícil. Questiona-se se o travesti não vai usar o trabalho como trampolim para a prostituição”, destaca Keila Simpson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Ao comentar a iniciativa da C&A e o aumento de interesse por parte das empresas por profissionais trans, Keila assinala que isso é fruto do trabalho de organizações que defendem os direitos dessa população. “Batalhamos por muito tempo a inserção primeiro em trabalhos informais, e depois a capacitação para que os trabalhadores entrem no mercado formal”, afirma.

Banheiros

Mas conseguir a vaga não é o final da batalha para os trabalhadores transgêneros. Piadas, assédio e até a falta de consenso quanto ao uso dos banheiros tornam o ambiente de trabalho hostil para a maioria dessas pessoas. “Houve um caso em que uma profissional trans foi chamada de pervertida e agredida fisicamente”, pontua a consultora em diversidade Maria Carolina Baggio, mestranda do programa de gênero e carreira da Faculdade de Administração da USP, que fez o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) justamente sobre o mercado de trabalho para transgêneros.

Mesmo quando não há violência física, os trabalhadores transgêneros têm que lidar com comentários maldosos, a interminável curiosidade pelos seus corpos e a frustração de não poder usar algo que lhes é caro: o nome social. “Nem tudo são flores, eu tinha antigamente um crachá, com o nome que minha mãe tinha me dado, e aí eu coloquei uma borrachinha por cima para esconder o nome”, diz João Hugo Cerqueira, que trabalha na equipe de comunicação de um deputado federal.

Valor de mercado

Apesar de todas as resistências e estranhamentos, há ganhos na contratação de trans, e não é à toa que grandes empresas como C&A, Braskem, Dow Química e Atento estão em busca de diversidade em seus quadros. Além da crescente demanda por responsabilidade social, as companhias que promovem políticas de inclusão de mulheres, negros, pessoas com deficiência, refugiados e transgêneros conquistam maior valor junto ao mercado, já que aumenta a percepção de que se trata de  uma empresa com preocupações éticas, sociais e ambientais, o que contribui para aumentar a venda de seus produtos e serviços e aumento de preço de suas ações.

Em função disso, o Instituto Ethos, em parceria com o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+,  vai lançar, até o final do primeiro trimestre do ano que vem,  o Guia Temático LGBTI+, para auxiliar empresas a promover políticas de inclusão social. O Instituto Ethos é uma organização que atua na defesa da ética nos negócios e reúne grandes empresas brasileiras.

“Até setembro de 2019 devemos lançar o Guia da Diversidade, contemplando empresas que desenvolvam práticas de inclusão para  os diferentes segmentos”, adianta Ana Lúcia Custódio, diretora-adjunta do Ethos.

Bahia

“Na Bahia, as iniciativas ainda são poucas, mas a Atento (empresa de call center) tem recebido e demandado  profissionais trans. A gente tem transitado e tenho percebido pessoas trans trabalhando no comércio e como atendente em clínicas”, comenta Keila Simpson, da Antra.

Mas ela destaca que os trabalhadores transgêneros ainda estão distantes do acesso ao mercado desfrutado por grande parte da população. “As escolas devem estar preparadas para receber transgêneros, para matrícula e permanência. E é preciso ter políticas de educação para que essas pessoas possam disputar a escola e a partir daí se formar”, diz.

Cota na Uneb

E se o acesso ao ensino é mesmo uma das grandes dificuldades dessa população, a Universidade Estadual da Bahia (Uneb) deu um primeiro passo para a inclusão de travestis e trânsgêneros em cursos superiores.

O vestibular deste ano, realizado no fim de semana passado, trouxe pela primeira vez cotas para transgêneros, travestis, e também para ciganos, autistas e pessoas com deficiência.

“A transfobia é um elemento crucial na vida dessas pessoas. Portanto, a garantia do ingresso através das cotas se coloca como uma ação afirmativa em termos de políticas públicas fundamental para a garantia da sua cidadania”, justifica a pró-reitora de Ações Afirmativas da Uneb, Amélia Tereza Maraux.

Para ela, o diploma universitário vai ser um aliado na luta contra o preconceito. “A qualificação garante aos  travestis e transgêneros representatividade nas diversas áreas do saber e atuação em distintas profissões”, diz.

Algumas Empresas que contratam trans:

C&A  A varejista multinacional está recrutando 5 mil pessoas com mais de 18 anos e interesse por moda para preencherem vagas temporárias durante o fim do ano. E a empresa anunciou que está aberta a contratar transgêneros e refugiados. Não há regime de cotas  e os dois segmentos concorrem em igualdade de condições com demais candidatos.  www.cea.com.br

Braskem Até o momento, apenas uma pessoa foi contradada pela gigante da petroquímica se apresentando como transgênero. Foi em São Paulo, mas a empresa garante seu compromisso de aumentar a diversidade no seu quadro de pessoal. Uma das políticas da Braskem é incentivar seus funcionários homossexuais ou transgêneros a “sair do armário”. www.braskem.com

Atento Uma das maiores empresas do setor de call center, a Atento foi uma das primeiras a aderir ao incentivo na contratação de transgêneros no Brasil. A empresa costuma demandar à Antra e ao Transempregos a indicação de profissionais www.atento.com.br

Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/mercado-de-trabalho-abre-as-portas-para-profissionais-trans/